Melioidose// Informações

Melioidose é uma doença emergente no Brasil causada pela bactéria Burkholderia pseudomallei.No ano de 2016, estudo da Nature Microbiology evidenciou que a doença é subestimada em todo o mundo. A pesquisa multinacional, a qual o Brasil participou, mapeou todos os casos registrados de melioidose (humana e animal), além da detecção ambiental de B. pseudomallei entre o período de 1910 a 2014. Estimou-se que anualmente ocorrem 169.000 com 89.000 óbitos no mundo.   A doença está presente em muitos países sem detecção.  Em 45 países é endêmica e altamente subnotificada e em outros 34 países, está presente porém nunca foi identificada. A estimativa global é que o número anual de óbitos por melioidose é semelhante ao sarampo e superior a dengue.

Esse estudo demonstrou que essa doença requer melhor atenção e prioridade pelos órgãos e autoridades de saúde, nacionais e internacionais, para elaboração de políticas públicas. No Brasil, somente é de notificação compulsória no Estado do Ceará, mesmo quase duas décadas após sua detecção inicial.

 

Ressalte-se ainda que a doença é mimetizadora com amplo espectro de apresentação clínica que dificulta sua identificação. Os sintomas são semelhantes a outras doenças infecciosas.  O diagnóstico, além de precisar de elevada suspeita clínica, é confirmado por exame microbiológico que requer laboratório e microbiologistas experientes. A bactéria B. pseudomallei é resistente aos antibióticos comumente utilizados para infecções comunitárias exigindo antimicrobianos adequados. A letalidade pode ser superior a 80% quando o diagnóstico não é oportuno e o tratamento não for adequado, justificando a necessidade de atenção para essa doença negligenciada.

DISTRIBUIÇÃO MUNDIAL 

A doença ocorre predominantemente no Sudeste da Ásia e no Norte da Austrália. Os países onde a doença é mais prevalente são Tailândia, Austrália e Malásia. A distribuição da melioidose encontra-se em expansão tem sido descrita na região asiática como Vietnã, Camboja, Laos, Índia subcontinental, bem como em outros continentes como Papua Nova Guiné na Oceania, África, América Central e na América do Sul. No Brasil, os primeiros casos ocorreram no Ceará no ano de 2003 e desde então o Estado vem detectando a doença e alertando para a detecção da doença nas demais regiões do país. Nas Américas, o Brasil apresenta o maior número de casos. Além do Ceará, há registro da doença em Alagoas, Piauí, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul. Até o ano de 2019, o Ceará registrou a 50 casos em 26 municípios.


TRANSMISSÃO 

A transmissão pode ocorrer através da exposição a bactéria por inalação de partículas do solo ou água, inoculação em pele e mucosas, particularmente em pele não íntegra, ingestão ou aspiração de água contaminada. A transmissão pessoa a pessoa é extremamente rara com poucos casos descritos (transmissão sexual, vertical e pelo leite materno). A transmissão ocupacional em laboratório, embora rara, também pode ocorrer.


PERÍODO DE INCUBAÇÃO 
O período de incubação é variável. Estudo australiano mostrou período de incubação de 1 a 21 dias com média de 9 dias. Nos casos agudos o período de incubação costuma ser curto, podendo ser somente de 2 a 3 dias. A doença pode permanecer latente por longos períodos e já foi descrita até 29 anos após exposição.

FATORES DE RISCO
Qualquer pessoa pode contrair a infecção, mas a melioidose é mais frequente em pessoas com doenças preexistentes como diabetes, doença renal crônica, doença pulmonar crônica, doença hepática crônica ou pessoas que fazem uso de terapia com corticoide ou drogas imunossupressoras ou são alcoolistas.

MANIFESTAÇÕES CLÍNICAS 

 

A doença é considerada uma “imitadora espetacular” porque pode apresentar múltiplas formas clínicas e ser confundida com outras infecções.
As principais apresentações clínicas da doença são:

  • Infecção assintomática

  • Infecção localizada com infecção da pele e tecidos moles.

  • Infecção pulmonar – pneumonia comunitária comum sem resposta aos antibióticos usados comumente até pneumonia grave.  Os sintomas podem ser inespecíficos como febre, tosse, dor torácica, mialgia e cefaléia. A infecção aguda grave pode evoluir rapidamente com insuficiência respiratória. A infecção pulmonar crônica é semelhante a tuberculose com febre prolongada, tosse e perda de peso.

  • Infecção da corrente sanguínea (sepse) - os sintomas incluem geralmente febre alta, cefaléia, agitação, desorientação, desconforto respiratório e hipotensão.

  • Infecção crônica - qualquer órgão ou parte do corpo pode ser infectado e, assim, os sintomas costumam ser bastante variados. Podem ocorrer infecções nas articulações, nos gânglios linfáticos, abscessos em diversos

locais como o fígado, baço, cérebro e próstata.

 

DIAGNÓSTICO  

O diagnóstico é laboratorial e realizado através do isolamento da Burkholderia pseudomallei por meio de cultura microbiológica obtida de sangue, urina, swab de orofaringe, escarro, secreções de feridas ou abscessos, líquor, lavado brônquico ou outros espécimes disponíveis.  Exames de biologia molecular também são utilizados para confirmação.


TRATAMENTO  
O tratamento é feito com uso apropriado de antibióticos. O início é feito por via endovenosa pelo período de 2 a 8 semanas, seguido por terapia oral prolongada geralmente de 3 a 6 meses para prevenir recidiva. O tratamento deve ser o mais precoce possível para reduzir a elevada letalidade da doença.

PREVENÇÃO

Não existe vacina para prevenção da doença. Medidas de prevenção são recomendadas para minimizar o risco de exposição, especialmente para pessoas com fatores de risco para adquirir a doença. Essas incluem evitar exposição de a solo e água principalmente nas primeiras semanas após chuvas, tratamento da água para consumo, lavagem adequada de alimentos contaminados com terra, uso de equipamentos de proteção como botas e luvas no caso de exposição ocupacional em agricultura ou outras atividades com exposição a solo e água e a obediência as normas

de biossegurança em laboratório.


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 

Benoit, T.; Blaney, D.D.; Doker, T.J.; Gee, J.E.; Mindy, G.; Elrod, M.; Rolim, D.B.; Inglis, T.J.J.; Hoffmaster, A.R.; Bower, A.W.; et al. Review article: A review of melioidosis cases in the Americas. Am. J. Trop. Med. Hyg. 2015, 93, 1134–1139.

 

Currie BJ, Anstey NM. Treatment and prognosis of melioidosis. 2018. Available from: https://www.uptodate.com

 

Currie BJ, Dance D. Melioidosis and Glanders. BMJ Best Practice. 2018.

  
Currie BJ. Melioidosis: evolving concepts in epidemiology, pathogenesis, and treatment. Semin Respir Crit Care Med. 2015; 36(1):111–25. https://doi.org/10.1055/s-0034-1398389 PMID: 25643275

  
Limmathurotsakul D, Golding N, Dance DA, Messina JP, Pigott DM, Moyes CL, et al. Predicted global distribution of Burkholderia pseudomallei and burden of melioidosis. Nature microbiology. 2016; 1:15008.

 

ROLIM, D.B. et al. Melioidosis, northeastern Brazil. Emerg Infect Dis, v. 11, p. 1458-1460, 2005

Rolim DB, Lima RXR, Ribeiro AKC, Colares RM, Lima LDQ, Rodríguez-Morales AJ, Montúfar FE, Dance DAB. Melioidosis in South America. Trop Med Infect Dis. 2018 Jun 5;3(2):60. 



ROLIM, D.B.; ROCHA, M.F.; BRILHANTE, R.S.; CORDEIRO, R.A.; LEITÃO, N.P. JR.; INGLIS, T.J.; SIDRIM, J.J. Environmental isolates of Burkholderia pseudomallei in Ceará State, northeastern Brazil. Appl Environ Microbiol. v. 75, n. 4, p. 1215-1218, Dec. 2008.   

 

Wiersinga WJ, Virk HS, Torres AG, Currie BJ, Peacock SJ, Dance DAB, et al. Melioidosis. Nature reviews Disease primers. 2018; 4:17107.